Transformação Espiritual
Há muito tempo o planeta não sofria uma mudança tão brusca quanto a provocada pela COVID-19.
Discute-se muito sobre as medidas preventivas adotadas na pandemia, mas o fato é que as ações humanas vão muito além de controles que foram ou não adotados.
Vimos mudando o planeta e o maltratando incansavelmente. Só para termos uma ideia, por volta de 2025, calcula-se que a proporção de toneladas de plástico por toneladas de peixe será em torno de uma para três; em 2050, vai ultrapassar uma para uma. Ou seja, teremos mais plástico na água do que peixe! No Oceano Pacífico, atualmente, há uma área composta por dejetos plásticos que atinge o tamanho de 16 vezes a área de Portugal!
Outro dado aterrador refere-se ao impacto da indústria têxtil na poluição do planeta. Ela é a segunda indústria mais poluidora do mundo! Dados diretamente relacionados a esse contexto: 70% dos cursos d'água na China estão poluídos; 10% do consumo mundial de pesticidas decorrem da produção de algodão.
Um rápido olhar sobre as doenças ao longo dos séculos nos permite perceber que doenças com grandes impactos sobre o número de vidas sempre existiram. Cito algumas para ilustrar: Praga de Justiniano (541 - 542) que atingiu a Europa, Egito e Ásia Ocidental, ceifou entre 25 a 50 milhões de vidas, representando em torno de 40% da população. Outra foi a Peste Negra, que, no século XIV, resultou na morte de 75 a 200 milhões de pessoas, representando de 30 a 60% da população da Europa, Ásia e Norte da África. A Peste Persa matou, em 1772, mais de 2 milhões de pessoas. Uma pandemia de gripe mundial, entre 1889 e 1890, resultou na morte de um milhão de pessoas.
No século XX, tivemos a Gripe Espanhola que ceifou, acredita-se, em torno de 100 milhões de vidas. Fora isso, tivemos: Pandemia de encefalite letárgica de 1915: 1,5 milhão de pessoas; Gripe asiática: 2 milhões de pessoas; AIDS, de 1960 para cá, matou mais de 30 milhões de pessoas. Concluindo, no século XXI, de 2015 para cá, temos a Epidemia de Febre Zika e, agora, a COVID-19, a qual já levou a óbito mais de 1 milhão de pessoas.
Doenças não faltam. Uma rápida consulta no site www.healthmap.org nos mostra que, no espaço de apenas um mês, foram emitidos 4227 alertas no mundo para todas as doenças registradas (acesso em 23 de setembro de 2020).
Se pensarmos que, desde 2007, temos mais gente morando em centros urbanos do que fora deles, levando 4 bilhões de pessoas a viverem em apenas 1% da massa terrestre do planeta e que, além disso, muitos habitam áreas onde não há água limpa encanada ou sistema de saneamento básico, fica fácil compreender como isso é um campo propício para o alastramento de doenças. Some-se a isso, outro dado: em 2019, as companhias áreas transportaram 4,5 bilhões de passageiros!
Como dissemos, estamos mudando o planeta... e o planeta está respondendo.
Esses processos de destruição – vamos chamar assim – que presenciamos são bem representados por um mito hindu, o deus Shiva. É interessante notar que, embora conhecido como o deus da destruição, ele é considerado amável, auspicioso, benevolente, etc., possivelmente por suas ações serem direcionadas para a construção de algo novo, renovador e transformador.
A estátua de Shiva (Shiva Nataraja - O Senhor da Dança) presente no laboratório europeu CERN, simbolizando a colisão de altas energias de partículas físicas, foi ali colocada no intuito de simbolizar o movimento de destruição e criação que ocorrem dentro do grande colisor. Curiosamente, nela também está presente o processo de intervenção da espiritualidade superior no plano material, através da descida do rio Ganges (o rio sagrado dos hindus) sobre a cabeça de Shiva.
A estátua é altamente simbólica. O círculo de fogo, com chamas que se projetam para fora, retrata a energia, a massa, o espaço e o tempo, o universo manifestado. Nela, estão representados: a descida do rio Ganges até a Terra, como já citado; o som OM da criação do universo; a destruição da ignorância e a direção do caminho da contemplação; e o fogo da destruição como símbolo da permanente mudança.
É interessante percebermos como esse período que estamos atravessando, que se assemelha a um grande processo de destruição, resultou num grande processo de reconstrução ambiental, mesmo que seja por pouco tempo. Os canais de Veneza ficaram limpos e cristalinos, como não ficavam há 60 anos, o Himalaia ficou visível pela primeira vez em 30 anos... É como se a natureza e a espiritualidade superior assinalassem para o homem que é possível um caminho melhor.
Quanto à importância da intervenção do plano espiritual superior, um dos grandes espíritas argentinos, Humberto Mariotti (1905-1982), no livro El Espiritu, La Ley y La Historia, destaca essa intervenção no grande movimento das coisas, ressaltando que, caso ela não ocorresse, tudo permaneceria sem desenvolvimento.
Para ele, se a Revolução Francesa tivesse sido apenas obra dos homens, não teria produzido algo do quilate da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que, em seu artigo 1º, destaca que "Os Homens nascem e são livres e iguais em direitos.(...)"
O plano espiritual superior age constantemente, aproveitando-se das diversas situações, a fim de produzir para a Humanidade elementos propícios ao seu desenvolvimento, valendo-se das ações humanas de diversas naturezas, direcionando, como diz Mariotti, "a um gênero de vida espiritual e civilizador".
Esse autor ainda assinala que a evolução é consequência do movimento, sem o qual não haveria progresso. Para ele, Jesus é o divino movimento da harmonia e da paz, e Deus, o Amor em movimento.
Aponta a definição de tempo como entidade espiritual, sendo esta entidade formada através dos tempos por seres individuais e coletividades, onde as ações se enlaçam umas às outras, formando uma cadeia poderosa que une o passado ao presente. Existem, assim, dois tempos: o tempo material e antidivino, que determina dores e enfermidades, e o tempo espiritual ou divino, que deve prevalecer, substituindo o tempo material. Tudo ressoará com o infinito, quando o tempo divino for a base da moral, da ciência e da religião, onde o grande e o pequeno, o alto e o baixo e as almas, por mais distantes que estejam, se unirão.
É preciso que o homem olhe para sua própria alma e se descubra filho de Deus, identificando a divina essência que existe em sua natureza. Ore o homem, diz ele, e o Divino Poder lhe dará a divina casa do infinito.
Estamos falando do processo de destruição, em seus diversos matizes, e da reconstrução que lhe é inerente. Estamos falando do tempo, do tempo divino que deve habitar em nossos corações e nossas mentes, direcionando as nossas ações. Estamos falando da direção que o plano espiritual superior imprime nos processos de destruição e criação, renovando a nossa maneira de ser, de pensar, de agir.
Dentro dessas ideias, trazemos alguns trechos das obras de André Luiz, em que a dor, esse processo de destruição / reconstrução com que nos deparamos ao longo das existências, mostra caminhos de renovação, resguardando o tempo necessário para isso.
Em Os Mensageiros, André Luiz, após visitar o lar que havia deixado no plano material e ter conhecimento das segundas núpcias de sua esposa, nos relata as diversas reflexões que fez e que o conduziram a uma visão espiritualmente madura de sua situação, após um período de grande perturbação por que passou.
Assim, ele diz que a dor o atingira profundamente e que ele não entendera de pronto os golpes recebidos, mas que essa experiência gerou mudanças nos seus sentimentos viciados, levando-o a ver adversários como benfeitores. Outro amor se instalou em sua alma, o que o aproximou da consciência universal.
Já, No Mundo Maior, em visita à casa de Marcelo, que, em vidas anteriores, não usou construtivamente o poder que possuiu e que, por ter sofrido perseguições no plano espiritual anterior à sua reencarnação, sofria de fenômenos epileptoides, destaca que "(...) se o mal demanda tempo para fixar-se, é óbvio que a restauração do bem não pode ser instantânea (...)".
Concluindo essa participação de André Luiz dentro desse texto, destacamos o trecho abaixo, que se encontra na obra Nosso Lar:
“Nossa dor, portanto, não nos edifica pelos prantos que vertemos, ou pelas feridas que sangram em nós, mas pela porta de luz que nos oferece ao espírito, a fim de sermos mais compreensivos e mais humanos. Lágrimas e úlceras constituem o processo de bendita extensão dos nossos mais puros sentimentos.”
Como reflexão final, questionamos se o processo de transformação espiritual em que estamos imersos poderia ser diferente do que estamos trilhando, com menos dores, menos dificuldades. Acreditamos que, independentemente da resposta, o que fica claro é que somos amparados pela espiritualidade superior, que aproveita o contexto que o nosso livre-arbítrio gera para nos conduzir à meta de todos nós: a unificação com o Divino, como decorrente do processo de transformação de nossas almas.
Daí, concluirmos com Mariotti, que afirma que "o Ser é como uma ave voando para a Luz, porque não está só, nem abandonado: Deus está nele e ele está em Deus."




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