A Parábola do Semeador

O Semeador, Van Gogh - Museu Van Gogh, Holanda

William Barclay, na coleção em que estuda o Novo Testamento, especificamente na obra em que aborda o Evangelho de Marcos, afirma que as parábolas não eram para ser lidas, mas escutadas; não eram para ser estudadas frase por frase, em profundidade, com tempo, mas para produzir uma impressão e reação imediatas.

A parábola do semeador – uma das poucas que consta nos três evangelhos sinópticos: Marcos, Mateus e Lucas –, pelos elementos que a constituem, nos causa esse impacto.

Mas o que é uma parábola?

A palavra tem origem no hebraico mashal, cujo sentido básico é enigma, e, no grego, parabole: justaposição, comparação, ilustração, do verbo paraballo: deixar uma coisa ao lado da outra, comparar.

Percebemos isso no Novo Testamento, onde muitas das parábolas do Cristo comparam coisas comuns da vida diária com o reino de Deus.

Existe uma grande discussão sobre o propósito das parábolas: elas servem para encobrir as verdades sobre o reino de Deus ou para esclarecer os conceitos relacionados com ele?

Tal discussão tem origem em um texto do Novo Testamento:

E ele lhes disse: A vós vos é dado saber os mistérios do reino de Deus, mas aos que estão de fora todas estas coisas se dizem por parábolas,

Para que, vendo, vejam, e não percebam; e, ouvindo, ouçam, e não entendam; para que não se convertam, e lhes sejam perdoados os pecados.

Marcos 4:11-12

Se analisarmos literalmente, concluiremos que, de fato, Jesus desejou encobrir a mensagem para aqueles que não eram seus discípulos.

Roberto Fricke, no livro
Las Parábolas de Jesus, traz-nos algumas análises de autores que buscam esclarecer essas posições tão contraditórias.

1 - As palavras não seriam de Jesus, mas pertenceriam à igreja primitiva que procurava assim explicar a postura incrédula dos judeus diante da pregação do evangelho. Aqui, o próprio Deus cegaria os judeus para que não entendessem, nem aceitassem o evangelho do reino. (C. H. Dodd)

2 - Os versículos em Marcos 4:11-12 seriam de Jesus, mas estariam deslocados, pois pertenceriam a outro contexto, tendo sido colocados, aqui, por Marcos. Também seriam de Jesus os versículos 4:1-9. Já os versículos 13-20, pertenceriam à igreja primitiva. (Joachim Jeremias)

Joachim Jeremias concorda com Dodd, afirmando que Marcos introduziu o texto para demonstrar que Deus excluía de seu reino os judeus incrédulos.

3 - As parábolas não teriam a finalidade de ocultar o conhecimento, mas sim eram dosadas por Jesus a fim de que pudessem ouvir (Mar. 4:33 - 
E com muitas parábolas tais lhes dirigia a palavra, segundo o que podiam compreender). Assim, Jesus transmitia seus ensinamentos e esperava que eles fossem entendidos. (Günther Bornkamm)

4 - A dúvida teria surgido de um problema de tradução do aramaico para o grego. Jesus teria dito que as parábolas eram 
para aqueles que não entendiam, não para que não entendessem. (T. W. Manson)

5 - Hunter considerava absurdo supor que Jesus usaria as palavras com a finalidade de não permitir a compreensão de seus ensinos. (A. M. Hunter)

Para encerrar essa questão, trago o pensamento de Cairbar Schutel, que, no livro 
Parábolas e Ensinos de Jesus, afirma que Jesus utilizou as parábolas para “(...) esclarecer melhor seus ensinos, mediante comparações do que pretendia dizer com o que ocorre na vida comum e com os interesses terrenos”. Nesse sentido, ele concorda com Hunter, embora deixe claro que os que entendiam eram aqueles que procuravam compreender seus discursos,

Deixando de lado essa discussão sobre o propósito das parábolas, vamos lançar o nosso olhar sobre a parábola do semeador.

Ela é, como dissemos, uma das poucas que constam nos evangelhos sinópticos.

É interessante observar também que quase todo o conteúdo do evangelho de Marcos pode ser encontrado no evangelho de Mateus, sendo que muitas partes tem similaridade em Lucas. Adicionalmente, Mateus e Lucas tem uma grande quantidade de material em comum, que não são encontrados em Marcos, como pode ser verificado na figura abaixo.

Wikipedia.org - acesso em 26/10/20

Essa grande quantidade do conteúdo de Marcos nos evangelhos de Mateus e Lucas ocorre, de acordo com os exegetas, pelo fato da forma da escrita em Marcos ser identificada como sendo a mais antiga, por conta de seus relatos estarem marcados pelo aramaísmo. Assim, o texto de Mateus, provavelmente, segue o de Marcos com o fim de obter dados mais precisos, por ela se tratar de uma fonte mais primitiva.

No que diz respeito à figura do semeador, não se tratava de algo desconhecido, pois se tratava de uma atividade que fazia parte do seu cotidiano.

É interessante refletirmos sobre um dos elementos principais dessa parábola: a semente.

No livro 
Palavra, Parábola, retiramos interessantes informações e considerações que registramos a seguir. Vejamos.

O autor cita algumas passagens existentes na Escritura:
  • a palavra é semente;
  • o povo de Deus é semente;
  • a fé é semente.
Sto. Agostinho de Hipona, antecipando Darwin em mil e quinhentos anos, afirma que Deus fez o universo primeiro em semente.

Existe toda uma simbologia por trás do termo.

Para os índios mexicanos, o homem e o universo foram criados dos grãos do milho. Uma relação interessante que se pode estabelecer é a comparação do grão de milho com um átomo!

Considerada como um presente dos céus, os hindus a chamam 
divya, que significa divina, sagrada.

Os babilônios a representavam como uma estrela, característica dos nomes dos deuses, da mãe e do céu. Assírios e babilônios têm a mesma palavra para aurora e semente, cuja imagem gráfica é o sol nascendo entre duas montanhas, lançando seus raios sobre a terra.

A palavra hebraica para semente é 
zera, que significa atirar, projetar, lançar, espalhar, dissipar.

Brooklin Museum, New York

Dessa forma, a parábola do semeador é a fotografia exata dos costumes palestinos, pois o semeador caminhava com uma sacola a tiracolo, pendurada do lado esquerdo e atirava as sementes com a mão direita, sem se preocupar onde pudesse cair. Ela era lançada na direção do céu quando se pedia as bênçãos de Deus, para, só depois, ir ao chão.

A semente é humilde (etimologicamente: humils - húmus - chão): ela é colocada no chão sob os pés dos transeuntes.

Mas ela também tem o dinamismo do ser. É vigorosa, ativa, criativa, produtiva, germinativa, multiplicativa. Ela multiplica “a vida e a fartura na sua atividade muda e silenciosa dentro da cova. Cova provisória, túmulo temporário, cadáver cujo destino é ressuscitar criando nova vida”.

Ainda em 
Palavra, Parábola, o autor pondera sobre a ideia de que o Cristo nos trouxe a semente-palavra, onde tudo está contido na semente, faltando só a ação do homem. Observemos:
  • antes dela brotar, é atirada para o céu: está pronta, mas não é nada ainda;
  • vem o trabalho do homem, da terra, da chuva, do sol;
  • vai produzindo frutos e mais frutos, alimentando uma infinidade de pessoas.
  • e os frutos continuam reproduzindo novas sementes e novos frutos para as novas bocas.
Vejamos, então, a 
Parábola do Semeador, como está referida no Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XVII.

“Aquele que semeia saiu a semear; e, semeando, uma parte da semente caiu ao longo do caminho e os pássaros do céu vieram e a comeram. Outra parte caiu em lugares pedregosos onde não havia muita terra; as sementes logo brotaram, porque carecia de profundidade a terra onde haviam caído. Mas, levantando-se, o Sol as queimou e, como não tinham raízes, secaram. Outra parte caiu entre espinheiros e estes, crescendo, as abafaram. Outra, finalmente, caiu em terra boa e produziu frutos, dando algumas sementes cem por um, outras sessenta e outras trinta. Ouça quem tem ouvidos de ouvir.” (Mateus, 13:1 a 9.)

Logo em seguida, vem o trecho correspondente à interpretação da parábola, em relação à qual se discute a autoria, presumindo-se que não seja do próprio Cristo, mas da comunidade cristã nascente.

“Escutai, pois, vós outros a parábola do semeador. Quem quer que escuta a palavra do Reino e não lhe dá atenção, vem o espírito maligno e tira o que lhe fora semeado no coração. Esse é o que recebeu a semente ao longo do caminho. Aquele que recebe a semente em meio das pedras é o que escuta a palavra e que a recebe com alegria no primeiro momento. Mas não tendo nele raízes, dura apenas algum tempo. Sobrevindo reveses e perseguições por causa da palavra, tira ele daí motivo de escândalo e de queda. Aquele que recebe a semente entre espinheiros é o que ouve a palavra; mas em quem, logo, os cuidados deste século e a ilusão das riquezas abafam aquela palavra e a tornam infrutífera. Aquele, porém, que recebe a semente em boa terra é o que escuta a palavra, que lhe presta atenção e em quem ela produz frutos, dando cem ou sessenta, ou trinta por um.” (Mateus, 13:18 a 23.)

Herrad de Landsberg, Abadia de Hohenburg, Alsácia

Compilando a parábola contada pelo Cristo e a interpretação dada pelo “Cristo”, acrescentando o comentário de Kardec, o de Cairbar Schutel e o descrito no EADE da FEB, livro II, temos:

(1)

Parábola do Cristo

Parte da semente caiu ao longo do caminho e os pássaros do céu vieram e a comeram.

Intepretação do “Cristo”

Os que escutam a palavra do Reino e não dão atenção, vêm os espíritos malignos e lhe tiram o que foi semeado.

Kardec

Para muitas pessoas, o Evangelho não passa de letra morta.

Cairbar Schutel

Algumas pessoas são como "beiras de caminho", como pessoas na estrada por onde passam ideias grandiosas, sem que nenhuma delas seja gravada.

EADE, FEB, livro II

Refere-se às pessoas que ficam à margem das orientações espirituais recebidas durante a vida. São aquelas pessoas que adotam uma postura indiferente, comodista, que ouvem falar do Evangelho, mas ficam indiferentes aos seus ensinos. São pessoas refratárias ao Evangelho.

(2)

Parábola do Cristo

Caiu em lugares pedregosos, com pouca terra. As sementes logo foram queimadas pelo sol.

Intepretação do “Cristo”

É o que escuta a palavra e a recebe com carinho no primeiro momento; mas, como as raízes não são profundas, ela não dura, ao ser perseguido por causa da palavra.

Kardec

Aqueles que são atraídos pelos fenômenos materiais, vendo-os como fatos curiosos.

Os que são atraídos por mensagens que lhes satisfazem a imaginação e, depois, conservam-se frios e indiferentes, tal como eram.

Cairbar Schutel

Algumas pessoas são como "pedras", impenetráveis às novas ideias.

EADE, FEB, livro II

Esse tipo de terreno é característico de um solo poroso, leve e pouco profundo, permitindo uma rápida germinação e morte das sementes. Dessa forma as pedras são representativas das "(...) formações mentais cristalizadas ainda existentes em todos nós". Também podem representar os "(...) condicionamentos ou reflexos dominantes da personalidade que se expressam sob a forma de interesses passageiros e superficiais, e que não cedem espaço a entendimentos mais profundos". A boa intenção cede à falta de persistência, demonstrando uma personalidade com interesses horizontais e superficiais.

(3)

Parábola do Cristo

A semente que caiu em espinheiros. Eles cresceram e as abafaram.

Intepretação do “Cristo”

São os que ouvem a palavra, mas são sobrepujados pelas falsas riquezas do mundo material.

Kardec

Refere-se aos que reconhecem os conselhos como bons, mas para os outros.

Cairbar Schutel

Outras são como "espinhos", que sufocam o conhecimento de todas as verdades.

EADE, FEB, livro II

Os espinhos são as indicações das "(...) viciações, más inclinações ou imperfeições que ainda abrigamos". São aqueles que ouviram as palavras espirituais, mas se decidiram pelas materiais, por parecer uma caminho mais fácil e cômodo. Representam "(...) o egoísmo, a intolerância, a maledicência, o autoritarismo, o orgulho, a vaidade, o personalismo (...)", etc.

(4)

Parábola do Cristo

Enfim, a semente que caiu em terra boa e produziu frutos: cem, sessenta, trinta por um.

Intepretação do “Cristo”

É o que escuta a palavra e presta atenção, gerando frutos: cem, sessenta ou trinta por um.

Kardec

As instruções recebidas são como a semente que cai em terra boa e dá fruto.

Cairbar Schutel

São os espíritos de boa vontade, que "ouvem a palavra de Deus [e] põe-na por obra".

EADE, FEB, livro II

Representam aqueles onde os ensinamentos do Evangelho são "assimilados e difundidos num processo natural". E aqui vale a pena ressaltar que a fertilidade dos terrenos varia, e a produção também, ainda que não deixe de haver uma resposta sempre positiva ao plantio. Assim, "trinta por um" pode se referir àqueles "(...) que se posicionam no sublime momento do despertar para as realidades espirituais".

A partir dessas considerações, verificamos que os diferentes solos referidos na 
Parábola do Semeador nos quais as sementes são lançadas representam a "diversidade evolutiva dos seres humanos". E, assim, a parábola exprime "(...) os matizes existentes na maneira de serem utilizados os ensinos do Evangelho".

Gostaria de concluir com Cairbar Schutel, com a sua afirmação de que 
A Parábola do Semeador é a “parábola das parábolas”, justamente por ela “(...) [sintetizar] os caracteres predominantes em todas as almas (...)”.

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