Felicidade e Dever

No livro Religião dos Espíritos (Emmanuel / Chico Xavier), o autor espiritual aborda a questão da felicidade, em um capítulo intitulado Felicidade e Dever.
Entretanto, antes de abordarmos o tema como trazido no livro acima citado, vejamos o que dizem outras obras, com referência ao assunto.
Encontramos, no Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo V, uma comunicação de François Madeleine (cardeal Morlot) que diz o seguinte:
Em tese geral, a felicidade é uma utopia (…) a cuja conquista as gerações se lançam sucessivamente, sem jamais lograrem alcançá-la. Se o homem ajuizado é uma raridade neste mundo, o homem absolutamente feliz jamais foi encontrado (destaque nosso). O em que consiste a felicidade na Terra é coisa tão efêmera, para aquele que não tem a guiá-lo a ponderação, que, por um ano, um mês, uma semana, de satisfação completa, todo o resto da existência é uma série de amarguras e decepções. E notai, meus caros filhos, que falo dos venturosos da Terra, dos que são invejados pela multidão (…).”
O texto acima, se por um lado reforça a impossibilidade da felicidade absoluta no mundo terreno, por afirmar que “a felicidade [neste mundo] é uma utopia” e por dizer que “o homem absolutamente feliz jamais foi encontrado”, por outro lado não afirma que não possa existir uma felicidade relativa.
A questão correspondente a essa lição de Religião dos Espíritos no Livro dos Espíritos é a 922, onde Kardec elabora a seguinte pergunta:
“A felicidade terrestre é relativa à posição de cada um. O que basta para a felicidade de um, constitui a desgraça de outro. Haverá, contudo, alguma soma de felicidade comum a todos os homens?”
A resposta apresentada é concisa e assertiva:
“Com relação à vida material, é a posse do necessário. Com relação à vida moral, a consciência tranquila e a fé no futuro.”
Dessa forma, podemos depreender que é possível uma felicidade comum, ainda que relativa, desde que os três elementos apresentados na resposta sejam atendidos: posse do necessário, consciência tranquila e fé no futuro.
Serve como alento – diante desse quadro de felicidade utópica e de que o homem absolutamente feliz nunca foi encontrado –, a fala de Matthieu Ricard (um monge com Ph. D. em genética molecular pelo Instituto Pasteur de Paris), quando nos diz que podemos treinar nossa mente para desenvolvermos as qualidades humanas fundamentais que criam bem-estar, dada a condição neuroplástica de nosso cérebro. Tudo o que fazemos muda o nosso cérebro. Assim, quando aprendemos a nos concentrarmos, a termos compaixão, a sermos altruístas, nos tornamos uma pessoa diferente. Esses comportamentos podem ser reforçados da mesma forma que aprendemos a, por exemplo, tocar piano e jogar xadrez. A meditação realizada em sessões curtas e frequentes (para assegurar que o processo de neuroplasticidade seja ativado e mantido) é uma ferramenta que nos auxilia no desenvolvimento desses comportamentos.
O termo felicidade é extensamente discutido no âmbito da filosofia. Uma breve consulta a obras da área pode demonstrar isso. Com a finalidade de expandirmos um pouco a compreensão do termo, mas sem a pretensão de trazer uma análise mais aprofundada, extraímos do Dicionário de Filosofia de Abbagnano os seguintes apontamentos:
  • em geral, refere-se a um estado de satisfação devido à situação no mundo;
  • difere de bem-aventurança, por essa se referir a um ideal de satisfação independente da relação do homem com o mundo, por isso limitada à esfera contemplativa ou religiosa;
  • é um conceito humano e mundano.
Vejamos um pouco mais.
Para Aristóteles (séc. IV a.C.), significava uma certa atividade da alma realizada em conformidade com a virtude, o que incluiria a satisfação das necessidades e das aspirações mundanas. Assim, pessoas felizes possuiriam três tipos de bens: os exteriores, os do corpo e os da alma. Os bens exteriores teriam um limite, pois o uso deles além de sua função utilitária os tornaria prejudiciais ou desnecessários. Quanto aos bens espirituais, pelo contrário, quanto mais abundantes, melhor. A felicidade estaria na medida do tino, virtude e capacidade de agir que possuímos. A felicidade da divindade residiria, portanto, não nos bens exteriores, mas em si mesma, por aquilo que é por natureza.
A ética pós-aristóteles ocupou-se da felicidade do sábio, definido como o que basta a si mesmo e acha a felicidade em si mesmo, melhor entendida como bem-aventurança.
Para Kant (séc. XVIII d.C.), a felicidade não vai derivar do que é no homem animalidade, mas é algo que ele constrói para si de diferentes maneiras, algo que pode alterar com frequência. Ela é parte do bem supremo (síntese de virtude e felicidade para o homem), não realizável nesse mundo, seja por não se conseguir um equilíbrio entre moralidade e felicidade, seja pela impossibilidade de satisfazer desejos e tendências do ser racional.
John Stuart Mill (séc. XIX d. C.) dizia que a felicidade, por depender de condições e ciscunstâncias objetivas além das atitudes do homem, não pode pertencer ao homem em sua individualidade, mas só ao homem enquanto membro de um mundo social. Baseado na ideia de Bentham (sécs. XVIII e XIX d.C.), que afirmava que decisões sociais e políticas devem ter por fim a máxima felicidade possível para o máximo possível de pessoas, Stuart acreditava que, para se alcançar a felicidade, a educação e a opinião pública, juntas, deveriam criar uma “associação indissolúvel” entre a felicidade de um indivíduo e o bem-estar da sociedade, permitindo essa última que os indivíduos pudessem buscar seus objetivos pessoais. O apoio do governo e da legislação, na garantia do indivíduo quanto ao direito de buscar esses objetivos pessoais, baseava-se na crença de que as pessoas estariam sempre motivadas a agir não só em favor do seu bem-estar, mas no de todas as demais. Caso alguém agisse de forma a violar a felicidade de outros, sua liberdade deveria ser restringida.
Para fecharmos esse pequeno sobrevoo no âmbito da filosofia, vejamos a definição abaixo apresentada por Lalande em seu Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia:
A felicidade é a satisfação de todas as nossas inclinações, tanto em extensão (no sentido de multiplicidade), como em intensidade (grau) e em protensão (no sentido de duração).
Dessas rápidas pinceladas filosóficas, percebemos que as ideias principais presentes nos parágrafos anteriores aos tópicos filosóficos se reafirmam. Assim, verificamos a presença da ideia de que a felicidade é relativa; que a felicidade absoluta, para aceitarmos a possibilidade de sua existência, deve ser definida como bem-aventurança; e que é necessário utilizar adequadamente os bens materiais, pois o mau uso gera consequências dolorosas para o ser humano. Não podemos deixar de destacar também a ideia trazida por Stuart Mill, no tocante à responsabilidade do homem enquanto membro de uma sociedade.
Vale destacar outro aspecto que está presente na definição de Lalande, onde a felicidade decorreria do atendimento de nossas inclinações em grau máximo, trazendo à tona também, por inferência, a discussão a respeito de felicidade x bem-aventurança.
O fato é que a Humanidade – pelo menos grande parte dela – está cada vez mais enfronhando-se na ideia de que a felicidade está relacionada com a aquisição de bens materiais. Estamos tão ansiosos com isso que deixamos de lado o bom senso e, literalmente, estamos consumindo as reservas do planeta. Em uma matéria do jornal Le Monde do dia primeiro de agosto desse ano, era destacado que, a partir do dia seguinte, teríamos consumido todos os recursos naturais que o planeta pode produzir em um ano. O pior de tudo é que esse dia está cada vez mais cedo a cada ano que passa. Para termos uma ideia, esse dia, em 1973, se situava por volta do dia primeiro de dezembro e, em 1997, por volta do dia primeiro de outubro. É assustador pensarmos que para continuarmos a bebermos, comermos, nos aquecermos, nos deslocarmos, etc., teremos que superexplorar cada vez mais os ecossistemas, comprometendo sua capacidade de regeneração.
Mas, afinal, como Emmanuel aborda a questão no livro Religião dos Espíritos?
O autor sinaliza que a felicidade é semelhante a uma “caçada difícil”.
Diz que alguns acham fácil de obtê-la e terminam por procurá-la entre os “mitos de ouro”, terminando na “fossa da usura”. Outros buscam o poder e se deparam com a dor extrema da desilusão. Outros, ainda, pensam em encontrá-la no supérfluo, mas acabam “apodrecendo de tédio, em câmaras de preguiça”.
Um alerta semelhante é dado pelo monge Matthieu Ricard, o qual afirma que “a felicidade não é a busca infinita por uma série de experiências prazerosas, [pois] isso é uma receita para a exaustão, não para a felicidade”.
Com toda a propriedade, Emmanuel assevera que a felicidade só pode ser encontrada com o dever corretamente cumprido.
Podemos, nesse ponto, inserir a definição de felicidade de Matthieu Ricard, o qual a define como “um jeito de ser, (…) um estado mental ótimo, excepcionalmente saudável que [fornece] (…) os recursos para lidar com os altos e baixos da vida”. Inserimos aqui tal definição por julgarmos ser interessante perceber que se por um lado a encontramos no bem corretamente cumprido (como diz Emmanuel), por outro ela também nos auxilia a cumprir corretamente com nossas obrigações, pelos recursos que nos fornece para superarmos as oscilações de dificuldade que encontramos na vida.
Emmanuel nos adverte para que observemos os deveres que a vida nos incumbe, os quais podem ser observados no quadro de circunstâncias, hora a hora, em que nos situamos. Assim, podemos vê-los:
  • na fé que pede serviço (aqui, podemos lembrar Tiago 2:17: “Assim também a fé, se não tiver as obras é morta em si mesma.”);
  • no serviço que roga compreensão;
  • no ideal que pede caráter;
  • no caráter que pede firmeza;
  • no exemplo que pede disciplina;
  • na disciplina que roga humildade;
  • no lar que pede renúncia;
  • na renúncia que pede perseverança;
  • no caminho que pede cooperação;
  • na cooperação que roga discernimento.
Emmanuel ainda adverte que, por maiores que sejam as dificuldades, não devemos nos desviar da “obrigação que recomenda o bem de todos, sempre que pudermos e quanto pudermos, seja onde for.”
Devemos ser leais a nós mesmos, ou seja, cumpramos o nosso dever, ainda que sejamos categorizados por aqueles que presos à ignorância nos vejam como rebeldes, fanáticos, ingratos ou loucos.
Lembremos que, no instante supremo da Humanidade, foi Barrabás quem foi escolhido e não, o Cristo. Essa situação demonstra as infinitas escolhas que, pelo nosso livre-arbítrio, possuímos na vida. Demonstra, também, a imensa capacidade de perdoar do plano espiritual; o amor profundo com que somos amparados; e coloca o Cristo como exemplo de dever, ao cumprir integralmente o que estava traçado pelo Pai.
Assim, concluindo com a lição de Emmanuel, cumpramos o nosso dever e tomemos da Terra somente o necessário à nossa manutenção, a fim de não nos apropriarmos da felicidade dos outros (e, no fim, a postergação de nossa própria felicidade). Isso nos conduzirá à “verdadeira felicidade, que fulge sempre, como bênção de Deus, na consciência tranquila”.

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