A Dor
Somente chega a entender a vida quem compreende a dor. (in
Estude e Viva
– Chico Xavier / Waldo Vieira – Emmanuel / André Luiz)
- Como vai? Melhorzinho?
- Não posso negar que esteja melhor; entretanto, sofro intensamente.
(…) Ah! Como tem sido pesada a minha cruz!…
(…)
- Oh! minha dor é muito amarga! Que terrível destino o do homem
penhorado no devotamento à família! Creio que raras criaturas terão
padecido tanto quanto eu!...
Assim se manifestou André Luiz a Clarêncio em Nosso Lar, ao
ser indagado sobre a condição de sua saúde, dizendo que obedeceu
ao velho vício do enfermo encarnado de explicar-se.
Em seguida, Clarêncio, após ouvi-lo, perguntou:
– Meu amigo, deseja você, de fato, a cura espiritual?
Mais do que uma admoestação, a fala a seguir é uma orientação de
como proceder para bem aproveitar os momentos de dificuldade pelos
quais passamos:
– Aprenda, então, a não falar excessivamente de si mesmo, nem
comente a própria dor. Lamentação denota enfermidade mental e
enfermidade de curso laborioso e tratamento difícil. É
indispensável criar pensamentos novos e disciplinar os lábios.
Somente conseguiremos equilíbrio, abrindo o coração ao Sol da
Divindade. Classificar o esforço necessário de imposição
esmagadora, enxergar padecimentos onde há luta edificante, sói
identificar indesejável cegueira d'alma. Quanto mais utilize o verbo
por dilatar considerações dolorosas, no círculo da personalidade,
mais duros se tornarão os laços que o prendem a lembranças
mesquinhas.
Não que não sejam compreensíveis os soluços de dor. André Luiz,
na obra Estude e Viva, afirma
que eles “são compreensíveis até o ponto em que não atingem a
fermentação da revolta”, convertendo-se, depois disso, em censura
ao plano Divino.
Naturalmente,
as
crises com dor são fáceis de serem
reconhecidas: moléstias, desencantos, acidentes, suplícios do
coração… Entretanto, não
se pode deixar de referir também às crises sem dor, que são as que
ocorrem quando
nos acomodamos com a inércia, afirmando que trabalhamos em demasia;
quando usamos o próximo em jogos de usura ou ambição; ao
admitirmos uma pretensa superioridade sobre os demais; ao nos
acreditarmos sábios e infalíveis, sem necessidade de avisos e
corrigendas; etc.
Mas o que é a dor?
No Dicionário de Filosofia de Nicola Abbagnano, vamos
encontrar a seguinte definição:
Uma das tonalidades da vida emotiva, mais precisamente a negativa,
que costuma ser assumida como sinal ou indicação do caráter hostil
ou desfavorável da situação em que se encontra o ser vivo.
Ao
se referir Abbagnano a “tonalidades da vida emotiva”, precisamos
compreender o sentido de emoções. No livro Psicologia
Positiva, encontramos a
seguinte acepção, alertando o autor quanto à dificuldade de
parcimônia na definição do termo:
As emoções (…)
envolvem julgamento em
relação a coisas importantes,
julgamentos esses nos quais, avaliando um objeto
externo como sendo importante para nosso próprio bem-estar,
reconhecemos nossa própria
carência e imperfeição diante de partes do mundo que não
controlamos por inteiro (Nussbaum in
Psicologia Positiva).
Assim, de forma sintética poderíamos dizer que a dor decorreria da
avaliação de algo externo caracterizado como hostil ou desfavorável
em que reconhecemos nossa carência e imperfeição diante de
situações que não conseguimos controlar.
Em Léon Denis (in
O Problema do Ser,
do Destino e da Dor),
a
dor é definida como uma “lei de equilíbrio e educação”, sendo
que “o sofrimento não é, muitas vezes, mais do que a repercussão
das violações da ordem eterna cometidas.”
Mas como Clarêncio
a define para André Luiz?
Dor, para nós, significa
possibilidade de enriquecer a alma; a luta constitui caminho para a
divina realização. Compreendeu a diferença? As almas débeis, ante
o serviço, deitam-se para se queixarem aos que passam; as fortes,
porém, recebem o serviço como patrimônio sagrado, na movimentação
do qual se preparam, a caminho da perfeição. (Clarêncio e André
Luiz – in Nosso
Lar,
cap. 6)
O
risco de nos acomodarmos diante das dificuldades é enorme, pois nos
poda a oportunidade de servir, por dificultar que nos libertemos dos
“complexos de avareza e vaidade, intransigência e preguiça” que
nos tornam insensíveis ao sofrimento alheio, e
ainda é “por
meio deles que se operam (…) os piores desastres do Espírito,
seja pela fuga ao dever, seja pela queda na obsessão”. (Emmanuel,
na
obra Estude e
Viva)
Não se pode também deixar de referenciar a questão da dor
coletiva. Na obra Ação e Reação, o instrutor Druso,
conversando com André Luiz e Hilário, assinala que “a dor
coletiva é o remédio que nos corrige as falhas mútuas.”
Em perguntas endereçadas a Emmanuel por pessoas presentes a uma
reunião pública em Uberaba, em 1972, o autor espiritual, através
de Chico Xavier, diz que o ser humano converte-se no seu mais severo
julgador, quando cresce em amor. Isso se dá por reconhecer em Deus o
Perfeito Amor aliado à Justiça Perfeita. Quando no estado de
erraticidade, conscientizados de nossas responsabilidade através da
análise de nossos débitos em vidas passadas, “rogamos os meios
precisos a fim de resgatá-los devidamente”, assinala Emmanuel. E,
por diversas vezes, “renascemos no Planeta em grupos compromissados
para a redenção múltipla.” (in Chico Xavier Pede
Licença – autores diversos)
Dispensável relatar situações relacionadas ao tema, pois o assunto
já é por demais conhecido, sendo um dos mais citados o caso do
incêndio do Edifício Joelma.
Concluímos
com Léon Denis, que afirma que “tudo o que vive neste mundo,
natureza, animal, homem, sofre e, todavia, o amor é a lei do
Universo e por amor foi que Deus formou os seres”. (in
O Problema do Ser,
do Destino e da Dor)
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