Desajuste Aparente
Emmanuel, no livro Roteiro, no capítulo intitulado Desajuste Aparente, aponta várias distorções na visão de não-espíritas com relação à doutrina Espírita.
Na visão do autor espiritual, muitos veem a doutrina como um “viveiro de crentes indisciplinados”, levando os espíritas a um excesso de interpretações e arraigado individualismo dos pontos de vista, compelindo-os a diversos tipos de renúncia.
É interessante quando olhamos na web e verificamos como certos estereótipos são aplicados aos espíritas: chorar num velório é prejudicial ao falecido; deve-se evitar dar os pêsames aos parentes; não se deve ir ao velório de roupa preta; a família é responsável pela recuperação do desencarnado no pós-morte; etc.
Emmanuel diz que não é verdade que a doutrina gere “crentes indisciplinados”, e, sim, que ela amplia os horizontes do ser:
- passa-se a ter uma visão mais adequada do Universo; e
- uma concepção mais alta de justiça.
Como resultado disso, temos:
- um maior desejo de liberdade para se alcançar voos mais altos;
- noção mais clara da responsabilidade que nos cabe, resultando no desenvolvimento de sentimentos mais elevados;
- maior atenção aos problemas que transcendem a experiência comum.
Tal situação pode gerar, por outro lado, comportamentos indesejáveis, já que ainda somos almas em desenvolvimento e a nossa personalidade pode tender a impor as ideias abraçadas sobre os demais.
Emmanuel alerta para isso, ao afirmar que “dentro do Espiritismo não há lugar para qualquer processo de cristalização dogmática ou de tirania intelectual.”
Kardec, ao lançar as bases da Doutrina, já destacava a importância do uso da lógica e da razão na sua elaboração, o que se percebe claramente quando dizia que “as comunicações dos Espíritos são opiniões pessoais, que não devem ser aceitas cegamente. O homem não deve, em nenhuma circunstância, desprezar seu próprio julgamento e seu livre-arbítrio.” (in Revista Espírita – 1869)
Nessa mesma linha de raciocínio, André Luiz Peixinho (in A Face Eterna do Ser) destaca que “[…] fica claro o caráter evolucionário do saber espírita, sua natureza não-dogmática, seu perfil de ciência moderna”. Ressalta ainda que Kardec “[…] contava entre seus adeptos, homens de todas as crenças, que não renunciaram às suas convicções de católicos fervorosos, protestantes de todas as vertentes, israelitas, muçulmanos, budistas e bramanistas [...]”.
É pelo fato da doutrina desenvolver um desejo de liberdade, maior responsabilidade, busca de sentimentos mais elevados e foco nas questões transcendentes que Emmanuel diz que cabe aos discípulos do Cristo buscar um caminho de acesso à vida superior – cumprir com nosso papel dentro do plano da criação:
- aceitar as facilidades humanas com vistas à prática da caridade e desprendimento de posse;
- disputar o ideal do trabalho, a fim de mais servir;
- lutar por sua liberdade, para submeter-se às obrigações que lhes cabem;
- adquirir luz para ajudar na extinção das trevas.
Esse caminho nos permite perceber, como assinala Bezerra de Menezes (in O Espírito da Verdade), que:
- o mundo repleto de ouro não resolve o problema da miséria;
- o grande espaço que existe não resolve o problema da cobiça;
- a cultura não resolve o egoísmo;
- as diversas teorias não resolvem o desespero;
- as organizações existentes não conseguem resolver os crimes.
Emmanuel adverte:
“Estar no mundo sem ser do mundo!”
O autor espiritual explica: “É alguém que, em negando a si mesmo, busca o Mestre da Verdade, recebendo, de boa vontade, a cruz do próprio sacrifício para a jornada de ressurreição.
Yogashririshnam (in Ser e Existência) destaca a importância dessa busca dizendo que se “pode fazer qualquer coisa se temos o pensamento no Divino”. Também alerta para a situação de que não podemos ser um homem religioso em um momento e comum no outro, pois isso nos levará a agir cada vez mais como um homem comum. Indica que a “única maneira de manter a integridade mental” é pensar no Divino e respirar no Divino.
Concluindo o texto, Emmanuel afirma que cada alma encontra-se em um estágio evolutivo diferente das demais, e que aquelas que se encontram na planície e olham para as que estão subindo o monte da evolução espiritual não conseguem “entender o roteiro dos que se desinteressaram da ilusão, caminhando em sentido contrário ao deles, ao encontro de outra luz”.
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