Dor


Tão linda a rosa,
tão belo o espinho.
Se não fosse ele,
onde a rosa?
Se não fosse a dor,
onde a alma?
(mensagem mediúnica)


Na estrofe acima, o autor espiritual estabelece uma relação entre o “espinho” e a dor, destacando a importância daquele para a sobrevivência da rosa. Dessa relação, decorre  a reflexão a respeito da dor como processo de desenvolvimento para o espírito, como veremos a seguir.

É interessante notar que o que chamamos de espinhos na rosa são, na verdade, acúleos! Embora ambos sejam importantes na defesa contra a herbivoria, ou seja, contra predadores que tem os vegetais como parte ou totalidade de sua alimentação, existem grandes diferenças entre eles. Os espinhos são estruturas duras, secas, pontiagudas, que não realizam fotossíntese; possuem tecido vascular, podendo transportar seiva; podem ser modificações caulinares e foliares; além de serem difíceis de serem removidos. Já os acúleos não são modificações caulinares ou foliares, sendo, normalmente, de origem epidérmica, não possuem tecido vascular e são fáceis de serem removidos.

Assim, na relação estabelecida entre “espinho” e dor, verificamos o alerta do autor sobre a nossa percepção equivocada no que diz respeito à dor. Nós consideramos a “dor-acúleo” como “dor-espinho”, o que faz com que aquela seja vista como de difícil solução, quase impossível de ser removida!  Deixamos de perceber a importância dela em nosso desenvolvimento espiritual, e não nos damos conta da existência da “dor-auxílio”, como descrito por André Luiz em Ação e Reação, como veremos mais adiante.

Também tornamos irrelevante o manancial de conhecimentos adquiridos na fé que abraçamos, e que “(...) conduz nossos raciocínios a um entendimento da natureza humana, a um entendimento do porquê da vida”. (mensagem mediúnica)

E, ainda na mensagem citada no parágrafo anterior, o autor pergunta: “Por que permitir que a dor torne sombrio [seus] momentos de Paz, de felicidade, de alegria?”

E aconselha: “Lançar o olhar para a vida, enxergando-a em sua verdadeira razão, é o que permite uma caminhada serena e produtiva.”

E pondera: “’Olhai os lírios do campo!’ é se deixar não apenas inebriar pela ventura divina, mas se permitir compreender a realidade de nossa existência”. E, mais uma vez, aconselha: “Volve-te, columba! Mergulha no Oceano Divino e tua alma não mais retornará para a ilusão que, hoje, te consome!”

Diante desse quadro em que a dor é situada, percebemos que é necessária uma mudança de nosso paradigma de como a compreendemos. Naturalmente, não se trata de enaltecer comportamentos masoquistas, mas de entendermos a verdadeira razão de nossa existência e do papel da dor nesse processo. Para isso, é necessário mergulharmos no Oceano Divino, como proposto pelo autor espiritual.

Mas, tanto para termos a condição necessária de entendermos a nossa existência, quanto para conseguirmos mergulhar no Divino, é preciso que nos conheçamos. O espírito Yoguin, em Ser e Existência, diz que:

Se quisermos processar a renovação, nossa reestruturação, haveremos de começar conhecendo-nos, tendo a coragem de mergulhar em nós mesmos, de nos autorrevelar para descobrir os motivos de nossos atos, suas raízes, a estruturas que estão no fundo do ser e que, em geral, ditam nosso comportamento.

 

Mas, afinal, o que é a dor? Como ela é definida?

No Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia de Lalande, o conceito é apontado como sendo de difícil definição, caracterizando-se como um estado psíquico peculiar, só permitindo que se investigue condições mentais (desgostos, tristezas, etc.) ou fisiológicas (sensações penosas ou desagradáveis: queimaduras, nevralgia, um golpe que se tenha recebido, etc.). É possível ter, no entanto, uma ideia precisa ao dizer que ela é o sentimento de uma lesão, compreendendo que também a dor moral, a perda de pessoas, até mesmo a perda de coisas ligadas a nós assemelham-se a verdadeiras lesões. 

É, de fato, complexa sua conceituação, pela subjetividade envolvida. A Associação Internacional para Estudos da Dor – IASP (na sigla em inglês) – realizou uma revisão da definição de 1979. Por dois anos, de 2018 a 2020, procuraram uma definição que se adequasse aos diversos tipos de pessoas (incapacitados, doentes mentais, etc.), bem como aos animais.

O resultado final foi publicado esse ano, tendo ficado com a seguinte redação:

Uma experiência sensitiva e emocional desagradável associada, ou semelhante àquela associada, a uma lesão tecidual real ou potencial.

 

Essa definição é acompanhada por seis notas, dentre as quais extraímos alguns trechos, por serem de nosso interesse nesse texto:

  • a dor é sempre uma experiência subjetiva, influenciada, em graus variáveis, por fatores biológicos, psicológicos e sociais;
  • o conceito de dor é aprendido por meio de experiências de vida;
  • o relato de uma pessoa sobre uma experiência de dor deve ser aceito como tal e respeitado;
  • embora, em geral, tenha um papel adaptativo, ela pode ter efeitos adversos na função e no bem-estar social e psicológico.
Destaques nossos. Quem desejar as notas integrais, tanto quanto o texto completo, pode acessá-los em: https://sbed.org.br/wp-content/uploads/2020/08/Defini%C3%A7%C3%A3o-revisada-de-dor_3.pdf – (acesso em 11.10.2020)

Avançando um pouco mais na compreensão do conceito – ainda que de forma tangencial –, a fim de criar um melhor embasamento na análise do ponto de vista espiritual, vejamos um pouco sobre dor crônica, como disposto no livro Contemporary Clinical Psychology.

A percepção desse tipo de dor (por exemplo, na artrite, artrose, fibromialgia, etc.) decorre de fatores biopsicossociais que determinam uma experiência de dor única para cada pessoa. Assim, algumas vão lidar bem com dores severas, enquanto outras não. Algumas vão ficar incapacitadas com formas brandas de dor, outras não.

No capítulo em que esse tópico é tratado, são listados alguns estados psicológicos que se relacionam com a experiência de dor. Assim, são citadas a ansiedade, a depressão, o pessimismo, a baixa autoeficácia (em termos gerais, o sentimento que um indivíduo tem sobre sua capacidade de realizar uma tarefa) e um sentimento de controle pequeno. Além desses, um dificultador para o indivíduo lidar com sua dor é a condição de um suporte social menor.

Estudos relacionando o luto com a dor crônica trazem um alerta para o qual devemos direcionar nossa atenção, mostrando-nos ser necessário que lidemos com ele e a dor que lhe é associada. Isso porque as memórias da perda estimulam os receptores de recompensa no cérebro, levando as pessoas a permanecerem na tristeza, dificultando o reajuste à própria vida, podendo até mesmo chegar ao ponto de produzir danos físicos e mentais, tendo em vista o fato de que um luto extenso equivale a um estresse crônico.  (https://dorcronica.blog.br/dor-no-luto/ - acesso em 11.10.2020)

É interessante notar que André Luiz – na conversa que mantém com sua mãe quando ela o visita na colônia Nosso Lar – recebe uma advertência que vai ao encontro do exposto no parágrafo anterior.  Observem:

Nossa dor, portanto, não nos edifica pelos prantos que vertemos, ou pelas feridas que sangram em nós, mas pela porta de luz que nos oferece ao espírito, a fim de sermos mais compreensivos e mais humanos. Lágrimas e úlceras constituem o processo de bendita extensão dos nossos mais puros sentimentos.

 

André Luiz – na obra Ação e Reação – expande a compreensão sobre a definição de dor ao nos trazer três conceitos: a dor-evolução, a dor-expiação e a dor-auxílio.  Vejamos:

  • dor-evolução – aquela que age de fora para dentro do ser, aprimorando-o e se constitui como condição para o progresso, como assinala o autor espiritual. Apenas para ilustrar a ideia, traz um simples exemplo, o da semente no processo de germinação.
  • dor-expiação – é a que atua de dentro para fora. Nessa condição, verificamos a situação em que o ser atravessa labirintos de aflição, dentro de um processo de regeneração.
  • dor-auxílio – decorre da intercessão de amigos divinos, com a finalidade de evitar a queda no abismo da criminalidade, além de preparar a alma para o processo desencarnatório, evitando surpresas desagradáveis na transição da morte.

Fora da relação acima citada, em outro capítulo do livro, há uma referência a um outro tipo de dor, a dor coletiva, que se constitui em um remédio que corrige as falhas mútuas.

Mas, se a dor tem uma finalidade, como podemos saber que ela está atingindo o objetivo a que se propõe?

André Luiz responde:

Quando a nossa dor não gera novas dores, e nossa aflição não cria aflições naqueles que nos rodeiam, nossa dívida está em processo de encerramento.

Gostaríamos de concluir com duas mensagens que nos exortam à real transformação de nossas vidas, e que, portanto, nos fazem lidar melhor com a dor, seja ela de que natureza for:

Não há vida, sem o Divino no coração.
Não há Amor, sem o mergulho no Divino.
                        (mensagem mediúnica)

(...)
Mergulhado no mundo – Deus.
Mergulhado no outro – Deus.
Mergulhado em mim – Deus.
Só Deus.
(...)
                                 In Divina Presença

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